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Pequenas alegrias: sinais de vida do cidadão comum

Quarta-feira, 10.02.10

 

Quando era miúda havia na televisão (a preto e branco e de um só canal) uma série que adorávamos: Os Vigilantes da Floresta. Um grupo de rapazes  e raparigas que protegia a floresta de incêndios, cortes ilegais, etc. Tinham sempre que fazer, como se calcula, porque a protecção de uma floresta exige prevenção. E os nossos heróis eram muito previdentes, estavam sempre atentos, e sobretudo, vigilantes. 

 

Hoje já não há séries assim. Quando espreito as séries que os miúdos vêem fico arrepiada. Muita tecnologia mas pouca inspiração para uma responsabilidade individual ou uma acção cívica, colectiva. Vejo violência, emoções básicas como o ódio, a vingança, a destruição pura e simples.

 

Mas voltando aos nossos vigilantes, é essa atitude que eu esperava há que tempos da sociedadade dita civil, a do cidadão comum! Um único sinal de vida! Porque uma sociedade dita civil que esteja sossegadinha, caladinha, indiferente, amorfa, é uma sociedade doente.

Tudo o que vale a pena exige atenção, cuidados, vigilância. Prevenção. Todos os dias. Refiro-me a coisas tão simples como a democracia, a liberdade, uma vida colectiva saudável, baseada na confiança. Confiança uns nos outros e confiança nos responsáveis de cada área de gestão do nosso colectivo.

 

O primeiro sinal de vida e iniciou-se na blogosfera! Foi essa a minha alegria, uma Primavera antecipada!

 

Se há uma onda de histeria? Não sei que fenómeno surge após uma apatia prolongada, não sei o que vem imediatamente a seguir ao desânimo... um entusiasmo febril?

 

Se há motivações mais egocêntricas? Cada um age segundo a sua própria consciência. Mas de uma coisa estou segura: muitos de nós sentir-se-ão reconfortados por saber que não estamos sozinhos no nosso cantinho, que afinal somos muitos a pensar o nosso colectivo, atentos ao que se passa. E agora mais do que atentos, vigilantes.

 

Se há oportunismo? E isso pega-se? Santo Deus!, o oportunismo pré-existe em todas as áreas da nossa vida colectiva. Faz parte. Uns criam, constroem, outros penduram-se e ficam com os louros. Existe em todo o lado. Hoje onde existe até mais oportunismo é no próprio estado, na sua cultura de raíz, intrínseca, que vê o cidadão apenas enquanto eleitor e contribuinte. Querem maior oportunismo do que esse, fazer negociatas com o trabalho do contribuinte? Sem dúvida que o monopólio do oportunismo pertence hoje ao estado.

 

Como os Vigilantes da Floresta, é assim que vejo esta iniciativa. Um primeiro sinal do cidadão comum a exigir os esclarecimentos que nos são devidos, uma informação verdadeira, correcta, adequada.

 

Um primeiro sinal de alarme também: o que falhou? O que está a falhar? A nível dos responsáveis pela gestão do poder.

Um primeiro sinal da necessidade urgente de uma reflexão colectiva profunda e abrangente, da decadência geral das áreas-chave da democracia.

 

Se o manifesto interpela directamente o PM? Bem, se é o responsável da gestão do nosso colectivo com mais poder actualmente (poder a mais, a meu ver, mas o sistema deu-lho e daria mais se não houvesse aquele pormenor tão português da violação do segredo de justiça)... é natural que seja ele o interpelado, não é?

 

Se é um ataque pessoal? Não o vejo assim. Para mim o que está hoje em causa é o próprio sistema democrático, a sua organização, e o próprio regime, que neste momento me parece incompatível com a democracia. Se queremos uma democracia com tudo o que implica, participação, vigilância, responsabilidade, este sistema e este regime como estão, não servem.

 

Assim sendo, estão todos envolvidos na reflexão. Terão de ser avaliados pelo seu desempenho: governo, partidos, áreas-chave como a Justiça, a Procuradoria-Geral da República, o Banco de Portugal, a ERC, a da concorrência dos mercados (terei de ir ver qual é a designação). É que parece que só o Tribunal de Contas está a funcionar de forma eficaz, além da máquina fiscal, claro!, afinal é de lá que vão retirar parte do money money para os seus excessos e desvarios...

 

O cidadão comum quer ser esclarecido, em primeiro lugar sobre o que realmente se passou a nível do condicionamento da informação a que tem direito. Certo?

Porque se o cidadão comum tivesse tido acesso, como era seu direito, à informação correcta sobre os números reais do défice, da dívida pública, do desemprego, da emigração, do estado real do país, e não à ficção generalizada nos jornais e nas televisões, talvez até os resultados das últimas eleições tivessem sido ligeiramente diferentes, não acham? É essa a dimensão da liberdade num país democrático: direito a uma informação fidedigna.

Se um dia destes se fizer a anatomia das últimas eleições legislativas, vai ser interessante perceber até que ponto todo o sistema esteve envolvido na mentira oficial. Todo o sistema.

 

 

Ah, já me ia esquecendo: Também se chamou a esta manifestação um folclore. Tudo bem. Aceito. Sempre será um folclore mais criativo do que o folclore transmontano (a perspicácia de Pacheco Pereira...), com que nos bombardearam diariamente estes 5 anos...  

 

As tentações partidocráticas: Espero que o cidadão comum se consiga distanciar de todas as tentações partidocráticas e não se deixe envolver pelas seduções de circunstância. É natural que os políticos sintam o ímpeto, o impulso (porque isso está-lhes na massa do sangue), de navegar na onda de um movimento da dita sociedade civil. Só nos faltava mais essa interferência, ainda por cima quando a avaliação e a reflexão que se exige, e que espero se inicie agora, envolve os próprios partidos, os da gestão do poder e os da oposição! Que escolham outros timings, que não façam coincidir as suas agendas políticas com iniciativas do cidadão comum, da dita sociedade civil. É o mínimo que se lhes pede.

 

  

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:18








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